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ENTREVISTA
DO GILBERTO DE NUCCI À REVISTA FAPESP – 27 OUTUBRO 2004 |
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http://www.revistapesquisa.fapesp.br/show.php?lang=pt&id=revistas1.fapesp1..20040903.200409103..SEC5_1&page=4&last_page=9#
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O
radical dos fármacos |
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Entre
remédios e polêmicas: criador do Viagra brasileiro critica a produção
de medicamentos pelo governo
Marcos Pivetta e Ricardo Zorzetto |
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Ninguém
permanece indiferente à presença do farmacologista Gilberto De Nucci.
Alto, corpulento e de andar acelerado, De Nucci é dono de uma voz grave e
um ar bonachão que o ajudam a fazer amigos quase com a mesma facilidade
com que arruma desafetos. É que esse médico de 46 anos tem opiniões
tão sólidas quanto polêmicas e não teme dizer o que pensa. "Ao
menos dois terços dos medicamentos não produzem o efeito desejado",
afirma. De modo mais claro, teriam uma ação mais psicológica que
farmacológica. Mesmo assim, ele defende o uso dos remédios: os maiores
avanços da medicina se devem à adoção de novas drogas. |
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Atualmente
De Nucci desenvolve três medicamentos. O primeiro a chegar ao mercado -
possivelmente já em 2005 - é o lilafil, destinado a tratar a dificuldade
de manter a ereção. Produzida por ele para o laboratório nacional
Cristália, a molécula do lilafil é semelhante à do Viagra e começou a
ser testada em seres humanos em agosto. O pesquisador trabalha ainda na
síntese de um antiinflamatório e de uma nova classe de
anti-hipertensivos. |
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Se
suas idéias são controversas, sua competência é inegável: De Nucci é
um dos pesquisadores mais produtivos do país. Desde 1985, publicou 217
artigos científicos em revistas internacionais. Hoje ele está entre os
três pesquisadores brasileiros mais influentes, cujos trabalhos aparecem
entre os mais citados por outros estudos, segundo levantamento da base de
dados ISI Highly Cited, que inclui os 4.800 pesquisadores mais influentes
de um total de 5 milhões de cientistas. |
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De
Nucci já registrou 22 patentes no Instituto Nacional da Propriedade
Industrial e 8 na World Intellectual Property Organization. Também foi
alvo de 12 processos judiciais, administrativos ou éticos. Segundo ele, o
único que perdeu, em primeira instância, foi o movido por uma das
instituições em que dá aulas - a Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) - por usar funcionários da universidade como voluntários em
estudos clínicos. "Posteriormente ganhei a disputa no Conselho
Regional de Medicina do Estado de São Paulo", diz. |
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Formado
pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São
Paulo (USP), foi estudar farmacologia na Inglaterra por identificação
pessoal com um de seus professores, o farmacologista Sergio Henrique
Ferreira. Em 1986, De Nucci concluiu o doutorado no Royal College of
Surgeons of England e, dois anos depois, publicou nos Proceedings of the
National Academy of Sciences um de seus mais importantes artigos
científicos sobre o papel da endotelina, hormônio vasodilatador liberado
pela parede interna dos vasos sangüíneos. |
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Além
de ensinar farmacologia na Unicamp, De Nucci dá aulas na Universidade de
São Paulo (USP), onde ajudou a criar a Unidade Analítica Cartesius,
responsável por 60% dos estudos de bioequivalência realizados no país.
Como se fosse pouco, há dois anos abriu seu próprio laboratório de
pesquisas em Campinas: o Galeno, no qual são feitos testes de
bioequivalência de medicamentos e a análise de substâncias tóxicas em
frangos e crustáceos destinados à exportação. |
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Há
alguns meses, o senhor declarou numa entrevista que 80% dos medicamentos
não funcionavam. Em dezembro passado, um dos vice-presidentes do
laboratório GlaxoSmithKline, Allen Roses, disse ao jornal inglês The
Independent que a maior parte dos remédios produzidos por sua empresa
não atuava como se esperava em mais da metade das pessoas. O senhor
poderia explicar melhor essa questão? |
Pelo
menos dois terços dos remédios atuam como placebo [substância
inócua]. Não produzem efeito. Ou não há evidências científicas de
que funcionem, pois não é possível avaliar a sua ação contra uma
série de patologias. Imagine uma pessoa que sofreu derrame cerebral.
Nesse caso, o efeito do medicamento depende de diversos fatores, como o
tipo de derrame e a área afetada. Como não dá para saber como eram o
comportamento e a memória antes do problema, é difícil saber se o
remédio está auxiliando a recuperação. O mesmo acontece com o mal de
Alzheimer. Dá-se o medicamento acreditando que a pessoa vá melhorar,
mas não se tem certeza. Afinal, não sabemos como essa patologia surge.
Sabemos como ela evolui, e medir se a evolução é melhor ou pior com o
remédio é complexo. Não há evidência de que o remédio funcione
contra a doença. Na verdade, nesse caso, isso nem é necessário.
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Não
é necessário? |
Como
no mal de Alzheimer há acúmulo de determinadas proteínas, basta
mostrar que o medicamento diminui esse acúmulo [ para que seja
considerado útil ]. Às vezes, nem se sabe se esse problema é
realmente importante para o surgimento da doença. Mas, como não há
modo de descobrir isso, o melhor é colocar a droga no mercado e
verificar o que ocorre. Quando não se sabe se um remédio funciona é
porque ainda não temos meios de verificar isso.
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Mas
não é preciso saber que o remédio ao menos não faz mal antes de
receitá-lo? |
Supostamente.
São feitos testes clínicos para verificar se o medicamento, a
priori, não faz mal. Agora isso não quer dizer que não surgirão
efeitos indesejados quando administrado para seres humanos. Aceita-se
esse risco.
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Faz
sentido receitar remédios assim? |
Faz.
E o pessoal receita assim mesmo. Há uma frase interessante sobre essa
questão dita por Sir William Osler [médico canadense autor de The
principles and practice of medicine, de 1892, referência na área
de saúde no início do século 20]. Ele diz que a vontade de tomar
medicamentos é talvez a principal característica que diferencia o ser
humanos dos outros animais.
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Mas
há remédios que funcionam, cuja ação extrapola o efeito placebo. |
Hoje
existem medicamentos que realmente agem contra determinadas doenças.
Com isso, ficam todos contentes: o paciente, que compra o remédio, e o
médico, porque os estudos clínicos mostram que o efeito do medicamento
é altamente significativo. Um exemplo é o uso da aspirina na
prevenção do infarto. Diversos estudos mostram que, em certa dose, a
aspirina reduz em quase três vezes a reincidência do problema. Mas é
um benefício relativo, uma vez que 80% dos pacientes não sofreriam um
novo infarto mesmo que não tomassem aspirina.
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Nessa
situação, é melhor consumir o remédio ou deixar de tomar? |
Toda
a lógica do sistema está justamente voltada para que se tomem
medicamentos. Não estou dizendo que os remédios não sejam efetivos.
Mas os melhores estudos clínicos mostram que, para 90% da população,
os remédios não produzem benefício nenhum ou que raramente há
benefício. Isso não significa que os medicamentos não tenham
utilidade, mas que a porcentagem dos pacientes que se beneficiam é
muito pequena, às vezes 2% ou 3%. Um exemplo? Um remédio conhecido
para tratar diabetes, a acarbose, que não é absorvido pelo organismo e
compete com a absorção de açúcar. De fato, com o remédio, a
glicemia da pessoa não aumenta, mas estudos feitos na Alemanha - na
Europa o pessoal é mais cuidadoso com isso - mostram que as pessoas
morrem do mesmo jeito. O remédio não altera a evolução da doença.
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Em
tese, os médicos acompanham publicações específicas da área deles e
têm de estar atualizados, saber o que é eficaz antes de dar para o
paciente, não? |
Na
verdade, não. Os médicos são muito pouco científicos. A avaliação
médica é subjetiva, apesar de as pessoas terem a fantasia de que os
médicos apresentam uma atitude científica. A história mostra que
não.
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Mas
o senhor não é médico? |
Sou
médico.
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Quer
dizer que os médicos fazem diagnóstico e receitam com base apenas nos
resultados que vêem no consultório? |
É
difícil aplicar os métodos científicos usados em laboratório na
prática da medicina. Em congressos se vê muita conduta baseada em
critérios subjetivos, os médicos dizendo "como eu trato, como eu
faço". São decisões pessoais, sem nenhum tipo de raciocínio
científico nem controle metodológico.
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Eles
não levam em consideração os trabalhos de medicina baseada em
evidências, revisões que mostram se uma certa droga serve para tratar
uma doença? |
As
pessoas chamam de medicina baseada em evidências ou evidence based
medicine. Eu chamo de evidence biased medicine [medicina
baseada em resultados tendenciosos]. As condutas da medicina baseada em
evidências são definidas a partir de metaanálises: juntam-se os
trabalhos sobre efeitos positivos e negativos de uma droga, na tentativa
de descobrir sua eficácia real. Mas, é sabido, a probabilidade de
estudos com resultados favoráveis serem publicados é maior que a de
trabalhos com resultados desfavoráveis. Isso contamina as conclusões
derivadas das metaanálises, daí a expressão evidence biased medicine
.
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Essa
é uma questão importante. No exterior há um debate cada vez mais
intenso sobre a obrigatoriedade de as empresas farmacêuticas tornarem
públicos todos os resultados, inclusive os ruins. |
Há
uma confusão aqui. Tornar os dados públicos não implica divulgá-los
em uma publicação científica. Os laboratórios têm de informar o
resultado de todas as suas pesquisas, sejam favoráveis ou não ao seu
produto, ao órgão regulatório, que, então, decide autorizar a venda
do medicamento ou não.
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Não
é pouco? Não seria melhor publicar os estudos numa revista científica?
Assim o médico que prescreve um remédio poderia ver esses dados. |
Avalio
trabalhos científicos e estudos clínicos e há uma diferença entre
ambos. O órgão regulatório faz uma revisão do estudo clínico porque
ali estão todos os dados brutos. No artigo científico não, aparecem
só as tabelinhas e os gráficos, e se questiona isso. Mas no ideário
das pessoas a indústria farmacêutica é bad boy, é gente que
quer ganhar dinheiro. Como se todos trabalhássemos de graça...
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Sem
querer satanizar nem santificar ninguém, sabe-se que há procedimentos da
indústria farmacêutica altamente condenáveis, como o pagamento de
viagens e benefícios a médicos para que receitem os seus remédios. Na
Itália, 4 mil médicos foram processados recentemente por isso. |
Não
estou santificando...
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O
modelo atual de trabalho da indústria farmacêutica não é ineficiente?
Os laboratórios dizem que desenvolver uma droga pode custar US$ 800
milhões, pois é necessário criar centenas de moléculas antes que uma
vire um produto comercial. É correto manter esse modelo? |
É
o modelo capitalista. A indústria farmacêutica visa ao lucro e seus
produtos têm alto valor agregado. Ela só não cobra mais porque as
pessoas não conseguem pagar.
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É
a lógica do mercado. |
Exato.
Por que a diária em um hospital privado de ponta é muito mais cara que
a de outro não tão bem conceituado? Porque o primeiro tem seus custos,
seu valor agregado e pronto. Sem entrar na questão do preço, o fato é
que existem medicamentos bons, que ajudam a medicina avançar. Aliás, a
medicina só progride com medicamento. O resto não conta muito.
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Os
procedimentos clínicos, a conversa com o paciente, não contam? |
Bobagem.
Medicamento é que realmente faz a diferença. E temos grandes
medicamentos. Talvez o preço seja absurdo, mas representam grandes
avanços. Além desses medicamentos importantes, há uma faixa enorme
cujo valor é dúbio, a avaliação é complexa ou a prescrição é
inadequada. Mas um terço é eficaz. Na verdade, ainda assim há
dúvidas. São eficazes porque seguimos um determinado modelo de
avaliação. Em outros modelos talvez não precisassem ser eficazes.
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Na
Inglaterra e nos Estados Unidos, alguns antidepressivos estão sendo
acusados de induzir ao suicídio e há quem diga que a indústria
farmacêutica ocultou alguns dados sobre os seus produtos. Como um órgão
público que zela pela qualidade dos remédios deve proceder num caso
desses? |
A
preocupação fundamental do órgão não é que o medicamento funcione
- acho que até perderam a esperança disso -, mas que ele não faça
mal. Para a cultura americana, se uma droga não funciona é uma
questão debatível. Mas, quando se prova que é nociva, o órgão
regulatório passa a ser co-responsável ao lado da indústria
farmacêutica. Então existe uma preocupação de fato com a segurança
do medicamento. A eficácia, o mercado pode eventualmente ajudar a
esclarecer.
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Por
que as pessoas deveriam tomar remédios de efeito duvidoso? Essa não é a
lógica dos laboratórios? As pessoas não usam mais remédio que o
necessário? |
Sim,
mas, como falei, existe um efeito placebo. Isso não significa que esse
efeito não seja bom. Veja o caso dos anti-histamínicos. Se a pessoa é
picada por pernilongo e está com coceira, você diz: "Toma logo o
remédio senão não faz efeito". A coceira passa antes de o
medicamento ser absorvido, perde-se o remédio. Isso é complexo. Existe
a noção de que medicamento é algo bom, mas, quando se procuram as
evidências, poucas classes de drogas são eficazes.
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Poderia
dar exemplos de drogas realmente eficazes? |
Quando
eu era estudante de medicina, cirurgia de úlcera duodenal era
freqüente. Havia várias técnicas de operação. Hoje toma-se Tagamet
(cimetidina) ou Antak (ranitidina) e a úlcera cicatriza em três
semanas. Ninguém mais sabe operar úlcera, é muito raro. Além disso,
cirurgia nunca foi uma especialidade médica. Ela surgiu no século 19 e
deve desaparecer no século 21.
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O
sr. acha que a especialização em cirurgia está com os anos contados? |
Em
algumas especialidades, as cirurgias quase terminaram, pois houve uma
redução drástica no número de procedimentos. Há cada vez menos
cirurgias na urologia e na gastroenterologia. As cirurgias oncológicas
ainda existem, mas eventualmente podem ser abandonadas. Hoje se trata
tumor de próstata com calor, radioterapia ou medicamentos. Com
exceção da área estética, cirurgia é algo pouco sofisticado.
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Quanto
custa desenvolver um remédio no Brasil? Não é mais barato que lá fora? |
-
Com US$ 5 milhões é possível chegar a um me-too [cópia de um
medicamento existente]. O me-too é um análogo estrutural, que
permite escapar da lei de patentes no Brasil e em alguns países, mas
não nos Estados Unidos. Lá são muito elevados os custos dos processos
judiciais movidos pelo laboratório fabricante de um medicamento
inovador, sob a alegação de similaridade da droga análoga. Aqui não.
Estou fazendo isso com um produto do laboratório Cristália, o lilafil,
que vem sendo chamado de Viagra brasileiro.
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Quais
tipos de medicamento o país poderia fazer com essa verba? |
Aqueles
que apresentam química pouco complexa e cuja síntese não é
complicada. Se a obtenção da molécula for complexa, o preço será
alto. Além disso, poderíamos fazer medicamentos cuja avaliação
clínica não é cara, como o análogo do Viagra, em que se deseja saber
se a pessoa tem ereção. É diferente de um tratamento para Alzheimer,
em que é preciso tratar pacientes por um ano e fazer uma série de
exames.
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É
comum pesquisadores brasileiros identificarem moléculas, mas não
chegarem ao medicamento por falta de quem o financie. Por que isso ocorre? |
Falta
de interesse. Sou farmacologista. Minha formação foi na indústria
farmacêutica e quero fazer medicamento, que é a forma que tenho de
controlar um fenômeno biológico. Mas é necessário ver a viabilidade
de se fazer isso. Aqui não há química de medicamentos, não se
sintetizam remédios.
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Por
que isso não existe? |
-
Perdemos o bonde. Nunca tivemos pessoal preparado. Como não tínhamos
uma lei de patentes, a troco de que haveria interesse em sintetizar
remédio se era possível copiar. E para copiar não se consegue
competir em preço com países como a Índia e a China. Nesses países o
custo da mão-de-obra é muito baixo e há o que chamo de subsídio
ecológico.
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Subsídio
ecológico? |
-
Exato. Veja o caso do rio Tietê. Por que o rio está desse jeito,
poluído? Porque há um certo nível de prejuízo que se aceita. Para o
Tietê ficar como o Tâmisa, de Londres, as indústrias terão de sair
daqui e será necessário tratar o esgoto. Há um custo. Na Europa não
se consegue sintetizar uma molécula de medicamento. O custo é tão
absurdo que não vale a pena. Vocês acham que, na Inglaterra, vão
querer uma fábrica jogando dejetos químicos ali ao lado? A síntese de
remédios para a Europa e os Estados Unidos é feita na Índia e na
China. Cubatão, por exemplo, é do jeito que é porque existe um
subsídio: "Pode produzir nesse local, fazer o que bem entender que
a gente não liga." É uma opção da sociedade.
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Não
seria, então, o caso de o Brasil também usar a China e a Índia para a
síntese de remédio? |
-
Não tem valor nenhum sintetizar medicamento. O problema não é a
síntese, mas a propriedade intelectual que se gera. O knowledge
é que tem valor. Mas acho complicado pegarmos esse bonde de novo. No
Canadá, 80% das pessoas com idade entre 18 e 25 anos estão na
universidade. No Brasil, esse número chega a 8%. O bonde vai passar
mais longe. Somos muito mais subdesenvolvidos hoje do que há 20 anos.
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A
biodiversidade nacional não pode ser uma fonte de moléculas e extratos
que seriam a base de novos remédios? |
Essa
é uma visão romântica.
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O
senhor não está subestimando o papel e o peso do país? A atuação
internacional do Brasil não ajudou a baixar o preço de alguns remédios
contra a Aids? |
Não
sei. Se fosse em futebol, estaria subestimando. Exceto isso, não vejo
nada de excepcional aqui. Commodities? Talvez o Brasil tenha o maior
rebanho de gado, talvez seja um dos maiores produtores de frango no
mundo. Seria interessante produzir um medicamento inteiramente nacional,
da descoberta da molécula até a pílula?- Não. Acho uma burrice. O
fundamental é o valor agregado, o conceito, a idéia da molécula. A
segunda coisa mais importante na vida, depois da sua existência, o que
é? Tempo. Quem faz isso bem? França, Itália, Hong Kong? Então vou
produzir onde fazem bem e rápido.
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Mas,
nesse aspecto, o da idéia de novas moléculas, o Brasil não estaria bem?
Afinal, os pesquisadores nacionais já publicaram diversos trabalhos sobre
moléculas eficazes contra algumas doenças. Ou seja, o passo mais
difícil, o fundamental, já não teria sido dado? |
-
Creio que não. Provavelmente não terei mais emprego depois dessa
resposta... Existe certo ufanismo em dizer que a produção científica
brasileira é 1% dos trabalhos publicados.
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Mas
esse é o dado do ISI (Institute of Scientific Information), que, na
verdade, estima que 1,5% dos artigos publicados em periódicos internacionais
sejam de brasileiros. O senhor é um dos pesquisadores brasileiros mais
citados, segundo o ISI. |
Há
uma lista de cientistas mais citados. Nela há três brasileiros: Boris
Vargaftig, que morou a vida toda na França. O outro é um colega da
Unicamp, Jorge Stolfi. Parte da minha produção também não é do
Brasil, mas de quando eu estava na Inglaterra.
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Analisando
bem, grande parte da ciência norte-americana é feita por estrangeiros. |
Sim,
mas são estrangeiros que geram conhecimento lá. Essa questão é
difícil. O salto que o Terceiro Mundo precisa dar é muito grande. No
Brasil ainda persiste a visão de que tem de se fazer tudo aqui. Não
funciona. Não é assim que se faz medicamento.
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Como
se deve fazer? |
Há
dois aspectos: um é desenvolver medicamento, o outro é preço. Uma
coisa é querer desenvolver um medicamento porque é um investimento
interessante do ponto de vista econômico e decidir como fazer isso. A
segunda é viabilizar idéias para chegarem ao mercado e saber como se
pode conseguir isso. Quando se consegue investir e criar o fato novo,
seguramente haverá capital, seja do país, seja externo.
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Para
o produto chegar ao mercado... |
Idéias
boas e viáveis são poucas. Nesse aspecto, acho que a função do
cientista que quer chegar lá é correr atrás. Se ele está vendendo o
produto que criou, tem de saber quem pode comprá-lo.
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Falta
empreendedorismo na universidade? |
Escritório
de patentes em universidade é uma gelada, uma pá de cal sobre as
universidades públicas. Passo longe para não brigar. Hoje esses
escritórios estimulam a redação de patentes. Como menos de 0,01% das
patentes é comercialmente viável, isso deve gerar uma grande despesa
sem a necessária contrapartida. Nesse tipo de escritório, quem vai
negociar com o laboratório é o economista, que não tem idéia de qual
é a finalidade daquilo que foi criado. O cientista que deseja que sua
descoberta chegue ao mercado é quem tem de saber quem procurar.
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Para
negociar com uma grande empresa é preciso ter noções de mercado e
marketing. O escritório de patentes não teria um papel nisso tudo? |
Tenho
a impressão de que nosso sistema universitário ficou muito polarizado
a respeito da questão do que é público e do que é privado. Acham que
a indústria vai roubar. Em uma entrevista sobre o Viagra brasileiro, me
perguntaram: "A universidade ficou com que parcela dos royalties
?" Falei: "Com zero por cento". "O senhor ficou com
quanto?" "Também fiquei com nada, mas fui contratado como
consultor para desenvolver o medicamento." Foi o laboratório
Cristália que fez a síntese da droga. Eles estão negociando o
desenvolvimento. Ganhei como profissional para desenvolver o produto. A
universidade não ganhou nada? Ganhou: não teve ônus e permitiu a
criação de um medicamento.
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Mas
o senhor não usou nada da universidade? |
Usei
o meu tempo, sou pago também pela universidade.
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Mais
nada? |
Fiz
alguns experimentos na universidade.
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A
nova Lei de Inovação prevê que o professor de universidade pública
também possa ter vínculo com empresas privadas. |
Isso
significa criar lei para tirar entraves de outras leis. É a visão de
quem acha que a universidade está sendo prejudicada. Nunca geramos
nada, essa é a grande verdade. E temos medo de criar algo porque vão
roubar. Assim, é melhor fechar.
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Não
é necessário ter regras claras? |
Não.
É preciso ter resultados, não regras. Em vez de criar lei a toda hora,
as pessoas devem deixar as coisas fluírem. Se a universidade não tem
mecanismo legal para cobrar os royalties, não tem importância, porque
a venda do novo remédio movimenta a economia do país. Alguma coisa
entra na forma de ICMS para o Estado. Depois que houver resultados, a
gente aprende a lidar com essa questão.
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Então
teria de haver alguma regra num segundo momento? |
Num
segundo momento. Certa vez fiz uma proposta à FAPESP. Por que não
podemos vender para a indústria privada equipamentos caros que se
tornam ultrapassados para fazer pesquisa? O laboratório da universidade
ficaria com 50% da venda e a FAPESP, com os outros 50%. Mas isso não
pode ser feito porque se trata de patrimônio público.
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O
senhor é a favor da existência de laboratórios públicos para a
produção de remédios, como Far-Manguinhos? |
Far-Manguinhos
[Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz, no Rio de Janeiro],
Furp [Fundação para o Remédio Popular, no Estado de São Paulo], tudo
isso deveria ser fechado o mais rápido possível. Acho um absurdo e já
disse a eles. O laboratório Bristol-Myers Squibb produz o captopril em
um ou dois lugares no mundo. No Brasil há uns 20 laboratórios oficiais
fabricando esse medicamento. Economicamente não sai barato. Há
mecanismos para um país modular o preço do medicamento. Mas não
haverá remédio de graça. Há um erro estratégico do governo: não é
função do governo produzir medicamentos.
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É
um problema de gestão? |
A
função do governo é assegurar à população o acesso aos
medicamentos.
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Como
isso aconteceria? |
Pode
haver políticas de saúde em relação à indústria farmacêutica. Há
vários modelos. Na França, o governo fala: "Vou pagar tanto por
esse medicamento. Se vender por esse preço, compro e ofereço para a
população".
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Joga-se
com o poder de compra para baixar o preço. |
Na
Europa, as seguradoras de saúde pagam medicamentos genéricos para seus
clientes. Se a pessoa não gosta de genérico e quer o de marca, paga a
diferença. O governo pode organizar o mercado e parar de fornecer
medicamentos que já deveriam ter sido proibidos porque fazem mal para o
paciente. Costumo falar: "Função de médico é fazer diagnóstico
e prescrever remédio. Indicar o tratamento correto". Se o paciente
pode ou não comprar o medicamento, nunca foi problema médico. Isso
cabe a outro profissional.
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A
qual profissional? |
Ao
político, àquele que vai gerir sistemas de saúde, aos administradores
hospitalares.
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E
se o paciente disser: "Custa R$ 100,00 e não tenho dinheiro"? |
A
função médica é diagnóstico e tratamento. Pára por aí.
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É
um problema de distribuição de renda e de ter um sistema que proteja as
pessoas mais pobres. |
Sim,
mas não é função do médico proteger o doente. É aí que se fazem
as maiores barbaridades.
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O
senhor acredita em homeopatia? |
Não
tenho evidências científicas de que funcione. Mas não trabalho com
homeopatia. Quando o bioquímico francês Jacques Benveniste publicou
aquele trabalho na Nature [em 1988, mostrando que a molécula de
água seria capaz de armazenar informações sobre compostos nela
diluídos], eu estava na Inglaterra. Perguntei a James Black, prêmio
Nobel de Medicina em 1988, o que ele achava do estudo. Black comentou
que outros trabalhos mostravam evidências sobre essa questão das
alterações na molécula da água. Ele é um prêmio Nobel e não falou
que era impossível. Conheço bem o Jacques. É um excelente cientista,
descobridor, antes dessa história da homeopatia, de um composto
importante: o PAF-aceter, um fator de ativação de plaquetas. Mas
Jacques é um cara de esquerda, comunista, com idéias políticas
contrárias ao establishment. [Jacques Benveniste faleceu
recentemente, logo após o Dr. De Nucci conceder essa entrevista]
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Ou
seja, seu perfil desagradava muitos. |
A
esse respeito, há uma história engraçada. Na Inglaterra, Sir Cyril
Burt [psicólogo morto em 1971] exerceu grande influência por alterar o
sistema de educação do país. Com base em estudos com gêmeos
idênticos, afirmava que a inteligência era determinada pela genética.
Burt ganhou prêmios e morreu em glória, com colaboradores no exterior.
Um estatístico norte-americano viu que era impossível chegar àqueles
dados. Publicou um artigo e foi escorraçado. O que falava foi
considerado um crime, como falar mal de Jesus Cristo? Foram ouvir os
colaboradores de Burt. Mas eles não existiam.
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As
pessoas acreditam nas personalidades e não na ciência? |
Acreditam
no que querem acreditar. Depois que se descobre que um conceito está
furado, todo mundo demonstra a mesma coisa. Mesmo que antes tivessem
provado o contrário.
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