Profa. Maria dos Prazeres Barbalho Simonetti: Uma carreira dedicada aos anestésicos locais

Por: Profa. Dorothy Nigro
Professora aposentada do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

A Dra. Maria dos Prazeres Barbalho Simonetti, mais conhecida apenas como Simonetti pelos seus amigos e colegas de trabalho costumava dizer: “A vida é como uma vela acessa que se apaga com um sopro”. Sua vida (vela) se apagou no início da noite de domingo (29/10/17), vítima de problemas cardiorrespiratórios, para a tristeza de seus familiares e amigos.

Nascida em Goianinha (RN), filha única de Ormus B. Simonetti e Jacira B. Simonetti, ficou órfã de pai aos dois anos de idade. Desde menina mostrava sua propensão para a medicina nas brincadeiras com os primos. Formou-se em medicina na Faculdade de Medicina do Recife, hoje parte da Universidade Federal de Pernambuco e ainda muito jovem veio para São Paulo, indo moras na casa de uma família amiga, para fazer residência em anestesia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Tão logo teve condições, trouxe para junto de si sua mãe para morar com ela.

Como anestesista trabalhou em vários hospitais: Hospital da Aeronáutica, Hospital da Penitenciária do Estado de São Paulo e, por ultimo, no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo.

Deixou a clínica para trabalhar em tempo integral no Instituto de Ciências Biomédicas da USP como professora e pesquisadora no Laboratório de Anestésicos Locais e Estudo da Dor, onde fez mestrado e doutorado. Tinha como linha de pesquisa o estudo dos anestésicos locais.

Para sua grande alegria, foi aceita para fazer o pós-doutorado no Brigham and Women’s Hospital, filiado a Universidade de Harvard, no laboratório do Dr. Benjamin Covino, um dos grandes nomes da anestesia regional. Trabalhar com ele foi motive de grande orgulho para ela.

Não perdia nenhum Congresso ou Jornada de Anestesia. Foi num desses encontros, onde se discutia a cardiotoxicidade da Bupivacaina, que ela teve um “insight” que resultou na descoberta de um anestésico local genuinamente brasileiro, que ela denominou Simocaína. Estudando a composição química da Bupivacaina, ela observou que era formada por dois isômeros. Um deles era responsável pela toxicidade, mas a sua retirada impedia o bom efeito anestésico. Sua ideia foi alterar a composição química da Bupivacaína. Segundo seu relato, em uma noite de insônia, teve a ideia de colocar na composição 75% do isômero bom e 25% do ruim. Parece uma ideia simples, mas ninguém tinha pensado nisso antes. Essa nova composição resultou num anestésico que induz boa anestesia local sem riscos para o coração. Foi denominado inicialmente de Simocaina devido ao sobrenome da pesquisadora, mas foi batizado de Novabupi pelo fato da matéria prima do estudo ter sido a Bupivacaina, um dos anestésicos mais utilizados do mundo. Ficou comprovado que a Novabupi começa a fazer efeito antes que os outros, tem duração mais prolongada e menos efeitos colaterais.

A Dra. Simonetti tinha uma maneira sui generis de escrever seus artigos científicos. Tinha o dom da escrita e usava esse dom para escrever seus artigos como se estivesse contando uma história.

Numa de suas entrevistas para o jornal a Folha de São Paulo disse: “Deram ao anestésico o nome de Novabupi e o meu nome caiu fora. Mas o importante é que isso vai ser revertido em dinheiro para a pesquisa no laboratório de anestésicos locais e de estudo da dor. O invento perdeu o nome, mas não perdeu nem a dignidade e nem a eficácia”.

Apesar de aposentada, continuava a participar dos Congressos e Jornadas de Anestesia, estudando e publicando artigos sobre anestésicos locais. Ultimamente seu grande interesse era o estudo do mecanismo de ação dos anestésicos locais e a nanociência. Num dos seus artigos escreveu: “A utilização da nanotecnologia surge como uma estratégia para potencializar a permeação de princípios ativos, quer através da pela, ou na travessia da barreira hematoencefálica, e os outros tecidos. Por isso tem grande interesse o tamanho das partículas (de uma pequenez inconcebível). Há confirmação da grande utilidade delas nos vários setores da medicina. As evidências mais robustas encontram-se na cosmetologia, onde os medicamentos são nanoveiculados, facilitando a penetração através das camadas mais profundas da pele. Daí pressupor-se que anestésicos locais nanoestruturados possam agir sobre o nervo, e com artifícios tecnológicos possam criar-se uma molécula capaz de bloquear o “ir e vir” dos elementos (Na e K). Dessa maneira vislumbra-se a aproximação da nanotecnologia à Farmacologia Molecular, tendo como foco o mecanismo de transmissão do impulso nervoso. Esse impulso caminha movido pela energia criada com a passagem dos ions Na e K, via canais (poros) existentes nas membranas das células nervosas, e um campo magnético é criado. Os anestésicos locais convencionais atuam interferindo nesse “passeio atômico”, destarte, dificultando a travessia desses elementos e assim, promovendo o estado de insensibilidade necessário para prevenir e ou eliminar a dor devido a interrupção do impulso nervoso.”

Termina seu artigo com os seguintes dizeres: “Que Deus não castigue a inteligência e o talento com os quais dotou sua criatura, fazendo-a capaz de ter a inspiração artística para alcançar o infinitamente pequeno. E que esse alcance beneficie a humanidade, salvando-a dos males que possam advir (diferente do que aconteceu com a maldição da cocaína)”.