Sergio Henrique Ferreira (1934 – 2016)

Professor Titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, publicou mais de 200 trabalhos científicos do mais alto nível, ampliando de forma significativa os conhecimentos sobre a farmacologia e a fisiopatologia da bradicinina. Seus estudos pioneiros na área permitiram o desenvolvimento de medicamentos para controle a pressão arterial, como o Captopril, e o desenvolvimento de novos agentes anti-hipertensivos. Na década de 1970, durante seu pós-doutorado no laboratório do Dr. John R. Vane, Sergio H. Ferreira foi um dos grandes responsáveis pela elucidação do mecanismo de ação da aspirina e da participação das prostaglandinas na resposta inflamatória, trabalhos que rederam o prêmio Nobel da Medicina ao Sir John R. Vane, em 1982. Seus trabalhos na área de dor resultaram na demonstração de um componente periférico na analgesia da morfina, no entendimento do mecanismo analgésico da dipirona e da contribuição do óxido nítrico na analgesia (Sérgio H. Ferreira). Um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (SBTE), presidiu nossa Sociedade entre 1986 e 1989, participando das diretorias de 1982-1983 e1984-1985. Presidiu ainda a Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FESBE, 1991-1994), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC, 1995-1999), a Sociedade Brasileira Para o Estudo da Dor (SBDE, 1998-2000), sendo membro da Academia Brasileira de Ciências desde 1984. Formou mais de 60 doutores e mestres e deixa uma legião de admiradores, por seu pioneirismo e inteligência.

Segue abaixo Histórico do Prof. Dr. Sergio H. Ferreira  extraído do portal dos Fármacos da UFRJ (2008) http://www.portaldosfarmacos.ccs.ufrj.br/atualidades_abc.html

 

Pequeno histórico científico do Prof. Sergio Henrique Ferreira (Por Lúcia Beatriz Torre)

 SHF

Paulista da cidade de Franca, Sérgio Ferreira nasceu em 1934, em um meio onde se respirava cultura e ciência. Sua mãe, Zeni Freire, foi uma das primeiras mulheres farmacêuticas do país. Seu pai adotivo era médico e jornalista. “Talvez por ser um mau aluno, eu tinha que ser curioso para sobreviver e entender as coisas de uma forma um tanto diferente dos outros”, declarou Prof. Ferreira, tentando justificar a sua habilidade para fazer Ciência.

O estudante rebelde graduou-se em medicina, pela Universidade de São Paulo (USP), em 1960. Quando entrou na faculdade, Sérgio Ferreira queria fazer psiquiatria, não tinha ainda idéia de ser cientista.

PROF. SÉRGIO HENRIQUE FERREIRA

 

Mas quando o seu psiquiatra se suicidou, desiludiu-se com a profissão e resolveu perguntar quem era o melhor cientista do Brasil para aprender, com ele, a fazer Ciência. Quando chegou, em 1961, no Laboratório do Prof. Rocha e Silva, a bradicinina tinha acabado de ser sintetizada.  Perspicaz, Ferreira reparou que a substância sintética era fraca em relação àquela do veneno da jararaca e resolveu aprofundar os estudos.

Um veneno como “antídoto” para a hipertensão

Descobriu que o veneno da Bothrops Jararaca, além de gerar a bradicinina, ainda era capaz de potencializar os seus efeitos farmacológicos. Conseguiu isolar e purificar os fatores potenciadores da bradicinina, sintetizando o menor deles, um pentapeptídeo. Com ele, demonstrou que o fator inibia a conversão da angiotensina, diminuindo assim a hipertensão arterial. A indústria farmacêutica internacional, baseada nas observações do Prof. Ferreira, conseguiu então desenvolver um medicamento inovador sintético, potente por via oral.

Atualmente existe no mercado mais de 20 substâncias que inibem a conversão da angiotensina. O uso desta classe de medicamentos tende a aumentar pois descobriu-se que, na insuficiência cardíaca e na lesão devido ao infarto do miocárdio, a potenciação dos efeitos da bradicinina apresenta resultados cardio protetores.

Ao contrário do que muitos imaginam, Sérgio Ferreira não se sente “furtado” em sua descoberta científica. “Eu fiquei orgulhoso. Muito satisfeito pois eu tinha contribuído para que a humanidade ganhasse um novo medicamento para controlar um problema que afeta grande parte da população”, esclareceu o Prof. Ferreira afirmando que, na época, o Brasil não tinha competência para fazer o desenvolvimento do produto. Segundo ele, o que caracteriza um país subdesenvolvido é a sua incapacidade de usar o conhecimento de sua própria universidade. “Eu fiquei até contente que roubaram a descoberta para mostrar a mediocridade do sistema industrial brasileiro”, declarou.

Entendendo os analgésicos antiinflamatórios

Sua contribuição, na área de analgésicos anti-inflamatórios, também é marcante. Nessa área, quando realizou o pós-doutorado no Royal College Of Surgeons of England, entre 1969 e 1975, teve a oportunidade de trabalhar com um renomado professor, John Vane, vencedor do Nobel de Medicina, em 1982. Em pesquisas conjuntas com Vane, mostrou que a aspirina prevenia a sensibilização da dor. De volta ao Brasil, demonstrou o envolvimento de citocinas na dor inflamatória, explicando, desta forma, a ação analgésica da talidomida, corticoides e outras substâncias que possuem efeito anti-inflamatório e analgésico.

Há mais de 25 anos como Professor Titular do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), Sérgio Henrique Ferreira, permanecia atuante estudando o mecanismo molecular de ação da Dipirona, a fim de propor o desenvolvimento de novas substâncias analgésicas de ação periférica.